Novos tempos
As poucas e resistentes locadoras
Antes da popularização da internet elas chegaram a somar 50 estabelecimentos e eram vistas como um grande negócio; hoje, apenas 10% se mantêm em funcionamento na cidade
Jô Folha -
Em julho de 2016, a última empresa fabricante de tocadores de fita VHS, a japonesa Funai, anunciou o fim da atividade. As fitas de 18 centímetros de comprimento foram um marco tecnológico dos anos 1970 e são associadas ao auge das locadoras de filmes ao redor do mundo. No começo do século 21, se popularizam o DVD e, mais recentemente, o blu-ray. Estes, por si só, não representavam o perigo à locação de filmes. O “grande vilão” foi outro: a internet. Há dez anos, quando os serviços de streaming não tinham a mesma popularidade de hoje e a própria internet estava em menos lares, o representante de uma distribuidora de filmes atendia cerca de 50 locadoras em Pelotas. Hoje, são apenas cinco - uma no Centro, duas no Fragata, uma nas Três Vendas e outra no Areal.
O atendente de antiga locadora no centro de Pelotas, que encerrou a atividade há um ano, crava: “É impossível manter o negócio”. De outra forma pensa Rudimar Leitzke, dono da antiga Hobby Vídeo, fechada também há cerca de um ano. “O meu público se mantinha, era mais voltado aos clássicos. O negócio era viável, mas perdi a motivação”, conta. Ele planejou um espaço para a locadora, historicamente localizada na rua Andrade Neves, junto ao seu restaurante. A ideia era uma proposta diferente, ainda mais voltada a filmes antigos e de boa recepção crítica. No entanto, a escolha foi pela desistência. Fita que não mais se rebobina.
Ainda em funcionamento, a Locadora Charada por pouco não seguiu o mesmo caminho. Parece denominador comum os donos de locadoras apostarem também em outro negócio. O casal Cristian e Fernanda mantém a loja na rua Irmão Gabino, na Guabiroba, e uma garagem de carros. Em novembro passado, por pouco não abandonaram os quase 2,5 mil clientes cadastrados.
O problema era o tempo, que parecia não compensar mais as cerca de três mil locações por mês. Porém, com a nova disposição de, além de alugar, também vender os filmes, a Charada, com seus cinco mil filmes em catálogo, foi mantida.
“Estamos há 13 anos no ramo. Ainda mantemos um público fiel, especialmente aqui da Guabiroba. Para eles, trabalhamos com os últimos lançamentos, filmes que recém saíram dos cinemas”, explica Fernanda. Além dos lançamentos, a loja trabalha também com filmes premiados recentemente, como O discurso do rei e Clube de Compras Dallas. Entre os mais antigos, mas nem tanto assim, Efeito borboleta, Os miseráveis e Na estrada. Filmes de ação, guerra, ficção científica e espionagem são os que mais atraem José Glemon, tradicional cliente. Costume - e economia - mantém o aposentado fielmente na locadora. Em um mês, chega a alugar de cinco a sete filmes.
“Gosto de ver filme durante a tarde, na sala de casa. É o melhor horário, não atrapalha a novela e ninguém me perturba”, conta. Aos 61 anos, ele acessa a internet, mas não gosta de Netflix. “Hoje em dia a gente tem tanta coisa para pagar, é internet, luz. Não quero mais uma na minha vida”, brinca. “Tem títulos aqui que não têm na Netflix”, acrescenta Fernanda, que nunca trabalhou com VHS nos 13 anos de locadora.
Quem ainda resiste
Angelo e Bruno Labres, pai e filho, são representantes da empresa Wmix. Atendem a cinco locadoras em Pelotas e não têm conhecimento de outras na cidade que tenham registro de firma e trabalhem com filmes legalizados. “Há dez anos atendia de 50 a 60 clientes”, lembra Bruno. Hoje estão em atividade, além da Charada, a Cine Pipoca e a Ruds Game - que trabalham também com jogos de videogame -, a Home Vídeo, no Fragata, e a Center Vídeo Locadora. Entre outros serviços e negócios alternativos, as locadoras vão sobrevivendo como podem em Pelotas. Sem o VHS, sem rebobinar fitas, mas com DVDs, blu-rays e clientes, que seguem fielmente a tradição da locação de filmes.
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